sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Shamu

(Este post é sobre um triste fato, de hoje. Tem um post recente sobre a Famigghja Lisboa-Gonçalves, e está logo mais abaixo!)

Foi a segunda a nascer da terceira ninhada (agosto de 1995), lindíssima, de Tomie e Akira, um casal de cães Akita maravilhosos, pujantes, elegantes, fortes, companheiros, verdadeiros guardas. Eram da casa da Ju Broide, amiga querida.
Shamu recebeu esse nome de nós, Flavita, , Dona Flavia, Gordão e eu, porque quando nasceu era redonda, toda preta, com “luvas” brancas e a ponta da cauda branca, além de uma faixa no dorso também branca. Parecia uma baleia orca. Aos poucos, apenas o focinho permaneceu preto, e o corpo foi se tornando cinza, bege escuro e, na velhice, bem clarinho.
Era gêmea da matriarca Tomie, e ainda mais linda.
O Akita, para constar, é cachorro que vive em casal, e vive por seu Samurai. Caçavam ursos no Japão dos Shoguns. Foram cruzamentos meticulosos que originaram esta raça que, mais que uma raça, é um temperamento e uma fidelidade que controlam um ímpeto e uma determinação de agir. São cachorros inteligentíssimos. Mas existem casos em que se tornam ferozes, e o dono que não conseguiu controlá-lo pode até ser atacado. Na verdade é uma raça de cachorro feita para se tornar um cúmplice de guerra, até a morte.
Shamu não desonrou os mandamentos da raça. Foi cúmplice de todos em nossa casa. Companheiríssima. Amicíssima. Irmã e filha.
Viveu sua primeira infância (podemos chamar de nenê?) dentro de casa. Lembro de dormir com ela no meu quarto e acalentar o chorinho colocando-a no meu peito. E dormíamos assim. Dormia na sala, também. Crescidinha, foi para o quintal, e chorava... Mas não tardou a compreender que ali viveria. Dormia na porta do quintal, como todo Akita protetor faz.
Cresceu e se tornou a grande cachorra que sempre foi.
Ela passou pela transformação inteira da nossa casa. Estávamos em reforma, juntando dois sobrados geminados da velha Pompéia, dois daqueles terrenos compridos com quintalzão.
E nesse quintalzão, mesmo durante a reforma, Shamu compactuou com os bem-te-vis, sabiás, maritacas, gatos e gaviões que habitam (ou habitavam...?) a velha Pompéia, a ponto de criarem uma bela pequena selva, refúgio para os pardaizinhos. Possuía de muitos anos diversos arbustos, uma daquela árvore de galho mole que solta leite, bastante antiga, um pé de laranja-lima e um paredão de mais de cinco metros repleto de unha-de-gato. Plantaram goiabeira, jacarandás, e logo aquele quintal se tornou o quintal mais badalado da Pompéia inteira.
Quem viu, sabe do que estou falando. Era um parque, todo feito por quem viveu lá.
Ou seja, a cachorra mais linda do mundo.
A responsável por isso faleceu na manhã de hoje, 15 de agosto de 2008. Aos treze anos.

Em 2002 ocorreu a grande mudança de sua vida. Um cachorro preto que baba surgiu em seu quintal para se tornar uma espécie de discípulo. Chulapa, o labrador gêmeo do Fidel, surgiu já jenjulão e babão com um tamanhão de ursinho. Mas um moleque, apenas.
Apenas com gestos, e uma maestra autoridade, Shamu controlava o ímpeto daquele ser eternamente brincalhão.
E é com enorme prazer que aqui declaro sermos, Shamu e eu, os responsáveis pela possibilidade de Rogério, o , ter tido na vida esse presente, bem, gigantesco.
Mas a vida da Shamu, também conhecida por Shamucuru, Shamucuruca, Mucuru, Mucuruca, que reconhecia também apenas o Mu como seu nome, iria mudar definitivamente no ano seguinte.
Saímos da Pompéia. A obra de Shamu nunca mais seria por ela vista.
E nós nos mudamos, Paula e eu, para a casinha da rua Cabo Eduardo Alegre. Aquela cachorra que passeava muito raramente passou a necessitar de dois a três passeios diários. Foi a nossa primeira casinha, e era muito aconchegante. Ali Shamu recebeu Baltazar, o gato preto, medroso, adotado já com cinco ou seis meses. Demorou em se acostumar com aquela cachorra que o conquistou aos poucos, mas sem nenhuma dúvida. Às vezes resolvia brincar mais duro com Baltinha, é verdade, mas nunca o machucaria. Dois meses depois chegou Mafalda, gata preta e branca. Que logo caiu nas graças daquela ursona-guará linda.
E foi conosco para o Mato Grosso, e lá ficou. Por lá não precisou passear todo dia também. Morou na casa da rua Ari Coelho, aonde chegou a dividir espaço com Fidel, Jeremias e Terri. Morou na casa da rua Rio de Janeiro, de novo com Mafalda e Baltazar, e depois na casa-sítio atual, com Fidel e Miúdo, com a e com o Wender, e com o . Também ajudou o progresso daquela morada aconchegante no cerrado.
Lá está sepultada, com honras e com boas vibrações desde Piratininga.
Não teve seu companheiro, e não a colocamos para cruzar com nenhum. Não deixou descendente. Apenas plantou, literalmente, sua existência e iluminação nesta vida.
Está eternamente em nossos corações.

Sua relação com a Princesa Teresa foi curta. Saímos de Mato Grosso grávidos dela, e Shamu não veio conosco. Estava vivendo perfeitamente em seus domínios, não fazia qualquer sentido tirá-la de lá. Portanto a única vez que Tetê a viu foi em nossa viagem do ano passado. E é evidente que Shamu adorou a nossa cria, tão maravilhosa.
Hoje, ao ver Papai e Mamãe chorando, ela disse “Não tem toblema, tem mais cachorro”.
Uma filha amparando os pais...
Mal ela sabe que, como Shamu, não há nem haverá outro(a) igual.

(Clique nas fotos para ampliá-las. São fotos recentes, Shamu está bem velhinha já. As mais antigas terei que escanear)

2 comentários:

Anônimo disse...

Shamuquinha é o cachorro mais especial que poderia existir. Deve ter virado uma brilhante estrela no céu, ou até mesmo o anjo da guarda das nossas crianças... Shamucuru coisa mais linda, fique em paz onde estiver. Nunca esqueceremos de você!

Anônimo disse...

Alguns animais vivem pra sempre e vivem nas lições que nos deixam: de amor dedicado, desinteressado e incondicional. Assim, nada está completamente perdido: nem a Shamu, nem o seu lindo quintal.
Filipe, eu chorei.
Beijos pra vcs todos.