domingo, 21 de junho de 2009

João e a Filosofia

Domingão, Papai tem de fazer um trabalhinho para amanhã, aula de Filosofia Medieval. Tema do curso: a Suma Teológica, de São Tomás de Aquino.
Tateava minha linha de raciocínio, às seis da manhã, e não a encontrava. Mas eis que Joãozinho acorda, e com sua Mãe me dá de bandeija a tal da argumentação.
No fim, saiu isso que segue...

João, o Filósofo em Potência


Segundo Tomás de Aquino, a Alma unida ao corpo intelige os corpos?
Se não, por que? Se sim, por que e como?


A Questão 84 da Suma Teológica I trata de uma discussão central no sistema filosófico de Tomás de Aquino, no tocante à necessidade proeminente de se construir a possibilidade de haver produção de conhecimento sob um escopo científico.
Ao mesmo tempo em que o intelecto não conhece, estritamente no conceito de Ciência, um sensível singular, e sim o Universal, é através deste sensível singular que o intelecto poderá produzir Ciência.

Com relação a isso, poderíamos sintetizar a questão através de uma situação casual, cotidiana.
O exemplo ao qual me refiro é de meu filho João, com a idade de onze meses e meio, aprendendo a calçar sapatos.
A intenção é a de exemplificar abstraindo de uma situação sensível uma analogia à forma do intelecto inteligir e, em última instância, produzir Ciência, que é o que poderíamos chamar de grande razão de ser da faculdade do intelecto na alma.

João tem um sapato que envolve o tornozelo com um elástico, e já conseguiu, por tentativas e repetição, calçar este sapato. E, de fato, é algo que parece encantar João. Vê-lo nesta situação suscitou-me a idéia expressa em uma frase, dirigida à minha esposa Paula; "Ele gosta de sapatos, não?".
E então sobreveio a frase que encerra a razão deste exemplo.
Disse Paula: "Ele gosta é deste sapato".

Ora, para João gostar de sapato, ele teve de ter a experiência de calçar sapatos com um par específico, ou seja, ter gostado de um sapato específico (não que não pudesse mais ter gostado de sapatos depois de subseqüentes pares experimentados, afinal neste exemplo lidamos com vontade, o que não pode ser conhecido e não é objeto de qualquer ciência), posto que a própria ciência tem seu início na ação dos sensíveis sobre o sentido, ainda que não haja qualquer garantia de conhecimento neste 'momento' e que ainda não tenhamos alcançado o intelecto com juízos universais e necessários, ou seja, produzido ciência.

Em uma frase, "(...) cumpre dizer que é impossível o nosso intelecto, de acordo com o estado da vida presente, no qual está unido ao corpo passível, inteligir algo em ato, senão voltando-se para as imagens" (Suma de Teologia I, Questão 84, Artigo 7)

Tomás de Aquino, na questão do "Como a alma unida ao corpo intelige coisas corpóreas", ao dizer que é impossível que o intelecto intelija algo em ato senão pelas imagens, que são obtidas pela faculdade imaginativa a partir do sentido, direciona a maneira pela qual o corpo irá incutir na alma o ato.
Ou seja, existe a potência do intelecto inteligir independentemente de estar ou não unido ao corpo, em tese, mas uma vez unido ao corpo só poderá inteligir o que não é corpóreo a partir de imagens de corpóreos.

João, em seu conhecimento incipiente do mundo, teve a partir desta imagem (de sapato) o início da cadeia de ações que os sensíveis realizam e que a alma, o intelecto, intelige. João começa a articular as faculdades, e a possibilitar, em ato, o intelecto, a partir da imaginação, da faculdade imaginativa, memorativa, e assim por diante.
A resposta para a questão desta exposição está dada; a alma unida ao corpo intelige os corpos. O que aqui resta a fazer é encerrar uma exposição das razões e das maneiras, que constituem a segunda parte da questão.

"No entanto, o objeto próprio do intelecto humano, que é unido ao corpo, é a quididade ou natureza existente na matéria corporal; e pelas naturezas deste tipo das coisas visíveis, também ascende a algum conhecimento das coisas invisíveis" (Suma de Teologia I, Questão 84, Artigo 7)

Sobre os corpos, aos quais se refere à questão, devemos dizer que constituem o seu conhecimento, no tocante às coisas materiais, segundo sua quididade, sua essência. E se os incorpóreos constituem uma quididade, também poderão ser objeto de conhecimento. A alma pode inteligir substâncias incorpóreas. Porém, por estar unida ao corpo, é somente através de comparação com as imagens de corpos sensíveis que isto poderia vir a conhecer. Portanto, apenas voltando-se para as imagens, articulando as suas faculdades e o sentido.
O ato do intelecto também não pode ser impedido pela ausência do sentido que se tenha a partir de algum orgão corporal, porém se alma está unida ao corpo a probabilidade (ou a potência) de se produzir Ciência, com o intelecto, é diminuída.
João pôde iniciar o conhecimento de sapato - para resgatarmos o nosso exemplo - pois teve a idéia de um par de sapatos existente no particular, e isso se deu através do sentido. A Alma, unida ao corpo que lhe proporcionou o conhecimento sensível, poderá fazer com que a faculdade do intelecto conheça a natureza do sapato.
E então João, que gosta de sapato desde tenra idade, é em potência um fabricante de sapatos bons, bonitos e baratos, segundo o conhecimento desta natureza, aliado ao conhecimento da natureza da produção de sapatos e do mercado que isso envolve, e do conhecimento de muitas outras naturezas ainda maiores, que em potência também tem a capacidade de adquirir, o que o tornará mundialmente famoso e, claro, bastante rico, pois Corinthiano ele já é.

Um comentário:

André Martins disse...

Oi Fi: lembrei do Pe. Rafael, tomista, que me disse que nós raciocinamos por imagens concretas. Por exemplo, para ensinar lógica matemática, é útil desenhar diagramas de Venn(círculos representando conjuntos) e a aprendizagem será mais fácil.
Espero ensinar ou desenvolver matemática com a Tetê e o Janjão, pois eles são muito inteligentes. São meus sobrinhos queridos.
Amo vocês.