sábado, 6 de fevereiro de 2010

Osso rachado, coração partido

Era já o fim da tarde de sexta, mas o expediente na biblioteca da escola e a aula de Teresa não haviam terminado, quando Pauleca me ligou.
-Fi, a Tetê machucou o braço, tô indo no pronto socorro.
E seguiram em uma dolorosa jornada.

Foram até o hospital São Luiz, mas a "cor da carteirinha" do convênio da Teresa havia mudado.
E nós sabemos que uma sociedade está em franca decadência, quando alguém vê uma criança sofrendo de dor e não se sensibiliza.
Ainda mais se quem não se sensibiliza é um burocrata, por causa da cor de um papel plastificado. Ora, mas quem sou eu pra reclamar, quando tantos sofrem piores agruras?...

Foram ao pronto socorro público que, dizem as más línguas, é "referência".
E essa tal "referência" desse tal de "prefeito" não pôde atender Teresa.
É que o ortopedista infantil não estava lá...

Com tantas andanças - e a menina é uma bravíssima guerreira, legítima herdeira do espírito de Neco e até fazia brincadeiras pra lá e pra cá - a menina exclamou:
-Tô cansada! Ninguém quer me atender, vamos pra casa!

Foram ao hospital Iguatemi e ali esperaram a vez, com uma senha. Já eram mais de oito horas...
As dores não tinham senha. E era a vez delas, e só delas...
Cheguei e vi a menina exaurida, o cotovelo inchado, o braço direito segurando o braço esquerdo machucado, que permanecia colado ao corpo.
Ela chorava de tempos em tempos, enquanto tentava contar como havia acontecido.
-Eu tava dançando quando me machuquei. Tropecei no pufe e caí de lado...
Estava dançando, feliz e contente, e veio a fatalidade...
Enquanto falava, enquanto andava, enquanto sofria as dores, ela se resolvia com elas, tentando vencer uma batalha interna a cada segundo...
Não deixava que a pegassem no colo. Doía. E ela gritava.

Já estava naquele estado catatônico quebrado apenas pelos pontuais e exasperados choros, de dores lancinantes que iam e voltavam, um tenebroso degradê, expresso na face moldada pela sensação do horror da fragilidade do próprio corpo.
E Teresa aprendeu a lidar com esta fragilidade. Na marra.

O tal do pediatra tocou no braço dela como quem aperta um saco de carne moída. E observou a dor do choro e do grito. Provavelmente por isso deve ter concluído, na sua cabeça formada e diplomada, que aquilo poderia ser sério. Isto tudo concluo eu, mas a indiferença dele me põe em dúvida, percebe?
Sentenciou um raio-x. Andanças, nova espera. As dores, sempre mais que urgentes, e tão pouco comoventes naqueles corredores.

E no raio-x foi preciso mexer o braço.
-É pra tirar uma foto... - disse o recheio de jaleco branco.

Terrível, terrível, terrível, terrível, terrível...
São açougueiros que cuidam de nossa saúde, meu povo!
Confiei no Altíssimo, em Humaitá, nos Guias e nos Anjos da Guarda, pois a esta Princesa estavam rendendo toda a ajuda e esforço de cura possíveis. Nada de mal além do que se apresentava ocorreria.
Dor. Muita dor. Mais dor ainda do que se pode imaginar. Gritos.

E quem conhece a potência da voz desta menininha sabe que estes gritos - agora constantes - não são qualquer gritinho. E vinham acompanhados de revolta.
"EU NÃO QUERO!
SOLTA MEU BRAÇO!
TÁ DOENDO, PÁRA!"

Indiferença e carniceria institucional. Braço esticado e tensão de uma criança.
Eu tentava ser apenas um canal de força e ASÈ entre a vibração altíssima dos Guias e da Egrégora , e esta menina gigantesca tomava uma dura e grandiosa lição de dor...
Injusta lição, quando pensamos nela desde o dia de seu nascimento, todos os dias de seu crescimento, e toda Mãe e Pai irá concordar comigo que é injusto!
Mas deve ter sua razão; nada é por acaso...

A esta altura, a menina tremia de dor e batia os pés no chão.
-Não bate o pé no chão que senão você movimenta o braço... - disse o sádico de jaleco enquanto movimentava - veja só a ironia - no braço machucado de um anjo...

Anjo nunca está sozinho, e os anjos se guardam.
A menina tomou fôlego.
Um fôlego incredibilíssimo para uma criança de quatro anos e dez meses. Soluçou profundo, inevitável. Eu a continha nos braços, agachado, acariciando a testa suada.
-Cadê a foto do meu braço?

Pegamos a radiografia e fomos até o pediatra. Mais andança pelos corredores do purgatório.
O pediatra olhou a radiografia. De fato, haviam duas rachaduras na base do úmero, próximo ao cotovelo. Mas nada estava fora do lugar. Depois, em casa, vendo melhor, percebemos que em volta do osso havia não um esbranquiçado, o que denota carne em radiografia, mas um "invólucro" escuro. Ou seja, uma baita inflamação...

Após constatar isso, sabe-se lá por conta de qual sadismo perverso e obscuro que poderia passar pela cabeça daquele cidadão, ele disse:
-Se estivesse fora do lugar, teríamos que entrar com uma intervenção cirúrgica.

Não saberemos se Teresa compreendeu o que estava sendo dito naquele linguajar degradante para aquela situação, mas começou a chorar forte.
O cansaço, porém, fazia arrastar aquele choro estridente, e a carinha dela já não estava apenas "longe de seu normal". Sofria demais...

Ele assinou, com toda a autoridade que lhe cabia, um pedido de imobilização. Disse a ela que "agora você vai imobilizar seu bracinho".
O prazer desse palavrório sádico na direção de uma criança com dores deve ser o principal motivo dele ter resolvido se tornar pediatra, se é que ele também não é especialista em cortes de carne.

A tala foi feita por um ser humano, experiente em imobilização, e ainda assim foi muito difícil. A sensibilidade no braço era maior que a menininha.
E ela é tão forte, uma verdadeira guerreira. Esperneou novamente, com toda a propriedade que lhe cabia e lhe era de direito.
O 'serviço' foi bem 'executado'.

E no caminho a pé até o carro, sentindo a cada lento passo os relâmpagos da dor debaixo das faixas e do gesso, foi a menina mais linda do mundo com todos aqueles pesares.

-O que aconteceu com ela? - perguntou um senhor na rua.
-Quebrou o braço...
-É, eu quebrei o braço... - soluços.
-Ah, isso é sinal de saúde!

A frase soou como um alento. Estava nos olhinhos dela. Tanto que, permitindo a exaustão chegar, sentada entre as duas cadeirinhas no banco de trás do nosso golzinho, e com aquele gessão sem jeito, a menininha capotou de sono.

Não sem antes mandar essa:
-Por que vocês mentiram pra mim, disseram que colocar o gesso não ia doer e doeu?

*******
No dia seguinte, o Pai tentando divertir a menina que acordou cheia de dores (e provavelmente amanhã será o mesmo, e talvez segunda não. Mas só talvez...):

-Olha só, essa menina é arteira, já até quebrou o braço!
-É, quebrei meu braço. Meu osso rachou, e meu coração vai ficar partido¹...
-É, meu coração ficou partido ontem, meu amorzinho...

*******
-Olha que maluco! - disse Teresa, que no tombo também ralou o joelho, e antes mesmo do tombo havia machucado o dedão da mão direito numa lixa. - Este braço que tá quebrado, e este outro que tá com bandeide!

*******
¹ Quem acompanha Teresa sabe que ela é poetisa. E das boas.

3 comentários:

Anônimo disse...

essa tete merece um beijo.. e muitos desenhos no gesso sem bandeide!!!
da um abraco forte meu nela.. e diz q meu coracao tbm ta partido.. daqui de longe...
tete'

Pauleca disse...

ai, gente, não imaginei que ficaria tão mal... depois escrevo o meu post sobre o braço quebrado da meninota. agora só to aqui chorando de lembrar da dor que ela passou, por tanto tempo...
ai, esses filhos!
beijos de uma mamãe com coração partido

Ana Thomaz disse...

lindo de ver a Tete correndo, pulando de um pé só, entrando na piscina, cantando, catando acerola do pé, e tudo isso com o gesso no braço!!!
parece que nietzsche estava certo "o que não mata, fortalece"!!!

beijos
ana